sexta-feira, 6 de novembro de 2009

o coração de uma boiada

o segredo do poeta
é não fazer sua melhor poesia
enquanto uma melhor não lhe surgir...

essa não seria escrita
não fosse o lugar de onde venho
mas o sertão é minha água
como é de chuva que ele se refaz...

Às marcas da boiada
o garrote se faz
mesmo às cercas e cercados

mugido de gado, brilho de estrela
ungido de seu canto
o amor da fêmea


faz-se par

anoitece o dia...

feneceria o feno
não fosse sua fome
e um estômago que sabe curtir

o garrote é conduta em potência
- mais respeito seu menino


Daqui a algum
vai ser seu braço e o olhar
A fazer o coração de uma nova boiada

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O que tenho a dizer
estava escrito e não li
O que tenho a dizer
ainda vão editar
O que tenho a dizer
está cravado no chão
O que tenho a dizer
está plantado no ar
O que tenho a dizer
se repete já ouvi
O que tenho a dizer
não cansou de escutar
O que tenho a dizer
está calado na flor
O que tenho a dizer
está gritando de dor
O que tenho a viver
é a pedra no chão
O que tenho a viver
é o tao e o cipó
O que tenho a viver
é o vinho e o pão
O que tenho a viver
grão de areia já é

domingo, 28 de junho de 2009

A arrebentação toca o recife

O espírito do mar quer profanar seu sal
Enquanto a areia da praia
Anuncia o rio que teve seu tempo só
Ai, quantas promessas esse leito não carregou?
Salubre prisma, o teu solo prometeu
Espelho d’água hoje reflete o caos
Que o cais de um colo sagrado de mãe
Levou à clareza de Deus
Ó pai, oceano não és solo, chão
És em meu peito universo

terça-feira, 23 de junho de 2009

A ave de rapina

Voa seu vôo menina!
Canta seu canto (um quase grito)
Que ativa o que te recobre
Tetas, manto ou plumas
Saias feitas pelo gosto de ser filha
do chão - sinto a força do que em seu seio é belo;
um sentir que paira e se prova num flutuar denso de uma pena caindo
A saber menina:
O céu não guarda segredos;
A chave de quem o guarda é o símbolo do seu mistério
Igreja do meu ser

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Sonhando

Queria compor algo sobre a flor
Queria dizer sobre aquilo que sinto
E talvez tocar toda a força que tens
Textura que o tempo escolheu para amar

Delicada és mais do que eu posso encontrar
Um mistério pedindo pra se revelar
Pois é o tempo ó flor o que rege teu ar
Instante que me fez poder tocar
A essência que habita
O lugar de onde vens

Minha loucura, pois
Terra da mãe do homem
Onde já não me encontro
Embriagando de ternura a delicada face da pétala
que equilibra em gotas a própria embriaguez

Eu que não te acompanho, pergunto
Tu que és o guia, por onde andas?

Neste teu silencio
Em que minha espera se faz verbo
minha estrada se faz carne
(e meu desabor busca alento em um beijo)

Guiado fui enquanto te esperava
Quando a aurora ainda era o brilho deste amanhã
Agora, agora iria além daquilo que por mim me foi prometido

Tocaria-te a pele e os lábios
Que a grama orvalhada proclame graças e glórias
Ao infinito amor que o céu tem a essa flor

sexta-feira, 3 de abril de 2009

âncora mineira

Me encontras onde já não me sei
Na minha solidão falas do que fui
Quando tuas manhãs contam meus afetos

Quando te encontro sou teu colo
Quando faço dia o entardecer
Pra que possa guardar mais um sonho

Descalça tua alma no meu pensar
E te despe desse dia com a certeza
de que serei ainda mais feliz
compondo de estrelas
o remanso do teu mar
onde salga o São Francisco
e onde a lua vem dizer
que o repouso calha
lá onde da fonte fez-se sonho

No grosso de seu leito
No destino dos que o habitam
pois as pedras do seu fundo

aguardam outros encontros

quinta-feira, 26 de março de 2009

da brisa especular

o vento e o papel do poeta
dele que se escreve em vida
num mundo onde a letra seria apenas um ponto
mas, sabe-se, ponto é tempo em esperança

andar no vento só a passos curtos
para que haja tempo de sensibilizar o toque
o poeta escreve
e faz do verso ou da linha um encontro

resta à brisa o acento do pai
e o silêncio que tanto diz
quanto o findar da folha que se desagarra
e quase tocando o chão grita o canto da ave